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domingo, 25 de setembro de 2022

Primavera Gelada !



E  a primavera iniciou com frio, e está  combinando com  minha alma, que está gelada,  A dor, e a tristeza  da perda de meu amor, meu companheiro, parceiro de vida, vestiram-me de uma camada fina de gelo, como se eu tivesse, de repente,  parado no tempo. Fico a reviver cenas, momentos passados juntos. 
Como lidar com esta perda tão definitiva?  

Escutamos  frases lindas sobre nossa finitude, sobre ser forte, cuidar de si, e que a vida segue. O desejo é de nos reconfortar, e, talvez, eu até dissesse para alguém o mesmo,  na mesma situação, mas  no momento da perda, não ajudam. Só o abraço e a presença bastam.  O único que queremos é parar o tempo, retroceder,  fazer a roda voltar, e ter novamente nosso amado conosco. Sentir o abraço gostoso, a palavra carinhosa, compartilhar momentos e ter novas experiências conjuntas. Precisamos do silêncio, de estar conosco e com nossas memórias, viver nosso luto até a dor  amainar, e conseguirmos revisitar lugares e pessoas que foram parte de nosso cotidiano.

É difícil o recomeço. Há que criar  uma rotina distinta,  novos hábitos, e ir, pouco a pouco,  se desvencilhando de coisas  que te remetem ao passado. Há que seguir. Estamos vivos, e ainda temos algo por construir, ou melhor, não terminamos nossa tarefa por aqui.

Ainda não sei o que quero ou espero dos dias que virão,  mas  vou  viver cada dia da melhor forma possível, resolvendo os pequenos e grandes problemas, na medida que forem surgindo, e buscando forças para seguir. Há que  prosseguir.

 Acredito que temos um tempo pré-determinado,  em nossa estada  aqui, e há que cumprir  nossa tarefa, que, se ainda estamos vivos, não foi ainda cumprida. Amo a vida por ela ser tão surpreendente. Nos joga literalmente no chão, mas depois nos brinda com o inesperado. É só estar desperto, observar a natureza, os pássaros, a vida acontecendo, e ver tudo de bom e  belo que nos circunda para vermos como  somos abençoados.



CidaGuimarães 

25/09/22


terça-feira, 31 de maio de 2022

Superstições

 
Não sou uma pessoa supersticiosa, mas acredito na força do pensamento,  e em minhas intuições. Estas  não têm,  geralmente,  a ver com crenças infundadas, como  a que diz que ver um  gato preto significa morte;  que dá  azar passar debaixo de uma escada  e uma série  de outras, que conforme a cultura, têm um significado distinto.

Meu pai não nos deixava varrer a casa a noite pois dizia que o dinheiro saia pela porta, e minha mãe  tinha a superstição que quando deixávamos cair talheres, vinham visitas em casa. Uma faca e/ou uma colher  era uma mulher, um garfo um homem.  Se caíssem os dois, viriam ambos. Isto, realmente aconteceu várias vezes. Coincidências? Talvez. Tudo sempre depende de onde colocamos nosso pensar, da importância que damos a determinados fatos. 

Para entrarmos em um templo chinês, você tem que dar três badaladas em um sino: para chamar Deus, avisando que você está chegando,  e pedir permissão para entrar. São  lindos os rituais. São  superstições? Acredito que podemos denominar crenças, que são seguidas,  há milênios.

No México,   a cerimônia  de casamento tem também uma série de rituais lindos, e no dia dos mortos levam comida e festejam a nova vida.

Me espantei  na China, com as noivas casando de vermelho porque é  a cor da paixão,  da sorte; com gatos acenando na porta para trazer  dinheiro, e os três chineses simbolizando as prioridades na vida: o primeiro, vermelho, é você ter  sorte; o segundo, o verde,  simbolizando  sabedoria,    e  o último a ser atingido é  o velho de cabelos brancos, a idade avançada.  Se só  tivermos sorte,  sem sabedoria,  não chegaremos à velhice. 

O que mais me espantou, e posso dizer ter sido, para mim, uma superstição  concretizada foi  um tailandês  me perguntando se eu era uma sexta feira. Fiquei bem  confusa: “Como assim?  por qué? O que tem a ver? “Nunca havia pensado, e nem sabia em que dia da semana  eu havia nascido  e se eu era/ sou uma sexta feira.   Só  depois fui pesquisar (Google,data de nascimento/calendário) 
e constatei que ele estava certo. Eu sou. Como descobriu? Minhas características são assim  tão  evidentes? 
Acreditam que o dia da semana em que nascemos infuencia nosso agir. A sexta é  regida  por Vênus, planeta do amor,  do social, da elegância. Muitos me veem assim.  Será? Nem sempre.

Os povos orientais são muito supersticiosos, e têm  mais rituais do que nós  ocidentais.
Eu acredito que damos força, e tendemos a tornar realidade tudo aquilo em que acreditamos, e nos  empenhamos em realizar, fazendo  com que nosso pensamento acabe afetando nossa realidade, e certas coisas, realmente, acabem  acontecendo.
 Rituais seguidos e tradições mantidas viram superstições.  Claro, vai depender de nosso agir. Se nada fizermos, nada vai ocorrer.


Cida Guimarães 
31/05/2022


domingo, 29 de maio de 2022

Minha Maior Lição

 


 


A vida  vem me dando várias lições. Nem sempre as aprendo, então  às  vezes,  ela se encarrega de me fazer viver situações similares, desafiantes, sucessivamente.  Acredito  que sou uma aluna  um tanto relapsa. Digo isto porque, invariavelmente, fico envolvida em problemas, que, no fundo, têm algo em comum, e já foram vividos, experienciados de alguma forma.  Há  alguém  necessitando de ajuda,  e um dilema moral  e econômico a ser resolvido: o que devo ou não  fazer? O que é  positivo/ negativo? Posso/ devo me  omitir/ interferir? Como isto vai me afetar? Como lidar com a culpa se eu não agir ou se minha ação for equivocada?

Como todas as grandes crises envolvem sentimentos e situações complicadas, nosso senso ético, os conceitos  e preconceitos  com que fomos criados,  foi somente após muita reflexão, que  constatei que  todas as situações por mim vividas, envolviam decisões em que eu me debatia com meu ego. Minha razão e minha emoção gritavam  querendo coisas distintas. Sempre evitei o julgamento e procuro me colocar no lugar do outro para ver como eu agiria, mas meu ego, sempre interfere. Pensamos ser melhores, superiores. Cheguei , então, a conclusão   que o desafio era lidar comigo mesma, vencer minhas limitações. Ser humilde.  Este é o pré-requisito, a lição primordial, que irá dar  sustentação ao  resto.

 Humildade para reconhecer  minha impotência  frente à vida  e aos  demais. Ter consciência que só posso responder por mim, decidir, e enfrentar as consequências, de minhas ações, sejam elas quais forem, mas não tenho como impedir, ou definir os rumos da vida dos outros, por mais amor envolvido.  Preciso exercer a humildade de me saber finito, restrito e incapaz de alterar os percalços que a vida irá  nos fazer enfrentar. O único que posso dominar é o meu eu, reconhecer minhas limitações, e  usar meu livre arbítrio  para fazer as escolhas adequadas com coragem e determinação.

Ser humilde, entretanto,  envolve  muitos pequenos e grandes passos: ter consciência de meus pontos fortes e fracos,  reconhecer minhas vulnerabilidades, erros, ser capaz de me despir de camadas de auto proteção,  egoísmo  e máscaras, e mostrar-me como realmente sou. Esta é a grande dificuldade e a lição maior que tenho que aprender- identificar meu eu real.

Quem sou eu ? Lá, no fundo, não identificado por muitos? O que quero da vida, qual meu objetivo,  o que desejo  deixar como  legado de vida?

Aprender a ser autêntico, expressando e evidenciando, aos demais, meu eu interior;  não ser  uma marionete manipulada; saber, com suavidade, colocar  uma linha divisória  entre o que é  bom para os outros, e o que é bom para min;  agir para  contemplar necessidades diversas, sem trair meus sentimentos, sem me violentar, e/ou  magoar os outros.

Tenho consciência que somos eternos aprendizes e que ainda vou ter que  retomar conceitos, refazer lições e revisitar minhas posições e atitudes para ver se estou realmente aprovada nesta lição. A lição de reconhecer meus limites, minhas possibilidades e que não sou melhor ou pior do que ninguém; só distinta, única, como são todos os demais.

 

Cida Guimarães

21/05/2022

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Mentiras Brancas






O que são  mentiras brancas? Existem as pretas? 
 Uma mentira pode ser boa? Para quem?

Esta história de mentira branca tenta justificar aquelas mentirinhas bondosas, que procuram mudar a realidade, preservar o outro, ou achar uma forma mais fácil para si mesmo de contar algo não abonador. Uma mentira nunca é positiva. Ela acaba prejudicando tanto o que conta como o dito beneficiário.  Custei  muito a me livrar desse hábito triste de mentir, ou distorcer os fatos. Em casa, isto ocorria,  com frequência, o que me confundiu  e atrapalhou muito. 

Havia visitas, que mamãe não queria receber, e dizia: "Diz que eu saí". Me envolvia em sua mentira. A pior, que me lembro, foi quando fiquei doente  com pleurite, e tinha que falar estar com problemas de tireoide. Não entendia na época com 11 para 12 anos o porquê.  O problema era o preconceito, na época, com a tuberculose,  então de difícil tratamento. Em cada época uma doença é maldita. Sempre o preconceito ou a preocupação com a opinião dos demais.
 Havia gastos, coisas pequenas, que também  minha mãe  escondia do papai, que era mais pé no chão, e encarava a realidade.  Não  há  aqui uma crítica a minha mãe, muito importante, amei, e vou amar, sempre; possuidora de qualidades admiráveis, mas ninguém é  perfeito,  e este era um problema originário de uma criação/ relação equivocada,  de preconceitos e falsos valores arraigados. 

O hábito de   mudar,  transformar e nunca contar a verdade, nua e crua é pernicioso, se instala e vai gradativamente minando relacionamentos .
 A confiança se perde quando nunca nos contam as coisas, como  realmente são. O nariz vai crescendo e fica disforme que nem o do Pinóquio, que ilustra bem a moral da história.

Nos relacionamentos sociais esta é uma prática comum. Convites que não são convites, elogios falsos, frases de efeito e promessas nunca cumpridas. Raro encontrar alguém que  ao ser questionado sobre algo te dê sua opinião real, sincera. Há, invariavelmente, a tentativa de não desagradar, falar o que seria melhor aceito. 
Muita hipocrisia !
O pior é que a pessoa fica prisioneira da mentira e acaba até mesmo acreditando nela.

Já  contei mentiras?  Claro, mas nunca foi positivo. Hoje  por mais  difícil que seja  tento ser honesta e contar a real, ou pelo menos, me esquivar da resposta. Outro dia li que ao ser questionado sobre algo, que não desejamos responder, a melhor opção  é  perguntar:
" Por que você gostaria de saber isto?"
Eu, geralmente, não faço  perguntas invasivas, que coloquem o outro em uma situação constrangedora, excepto se tenho muita intimidade e desejo ajudar.

Há  também  as omissões. Não contar é  mentir? De certa forma, dependendo,  do que está sendo omitido, sim. Se afeta o outro, se saber algo pode mudar ou interferir na vida da outra pessoa, sim, a omissão é uma mentira.

A sinceridade absoluta não  é  fácil e talvez, seja até impossível.porque iriamos magoar e   ferir as pessoas ou sermos magoados. Há  coisas que é  melhor silenciar. Uma dicotomia que precisa de nossa atenção  e muito cuidado para saber dosar e utilizar com sabedoria nossa sinceridade.  Uma arte a ser cultivada. A sinceridade total é, muitas vezes, pura  grosseria. 




Cida Guimarães
23/05/2022

terça-feira, 3 de maio de 2022

UMA NOITE DE TERROR !

 



    
Deitada no sofá da sala,  de pijama,  assistindo TV depois de um  interminável dia de aulas, Joana  curtia a paz, quando  se fez noite.  Tempestade se aproximando. Continuou se refestelando  embora a sala fosse repetidamente iluminada por  relâmpagos,  seguidos por estrondos, e a chuva, agora, fosse torrencial. A natureza  estava em fúria. Tenta se concentrar na novela. Sempre temeu os temporais.

Soa a campainha da porta freneticamente. Quem seria? Não era o interfone, então deveria ser um morador do prédio. Levantou-se,  abriu a porta, e deu com o Sr Márcio, seu vizinho de porta,  senhor idoso,  meio mal-humorado.  Geralmente, vinha   evitando puxar conversa com ele, pois  desfilava sempre  um interminável rosário de queixas. Para o seu“ Bom dia, tudo bem?” A resposta era invariavelmente“ Não, nem sabe, estou com muitas dores, e hoje....” Naquele dia foi incisivo:
"Rápido,  saia rápido, que a água já vai invadir seu apartamento". Sem entender bem, Joana  olhou para baixo e viu que a água, realmente, já adentrava o apartamento.  Foi nos fundos, onde havia uma área adjacente a cozinha e viu a água entrando com força. Já  estava em dois palmos de altura. Desesperada, sem saber o que fazer,  pegou o celular, óculos,  levantou alguns poucos objetos, e de pijama mesmo desligou a chave de luz e foi com o Sr. Márcio para o  apartamento da Jacira no 1°andar,  onde já se encontravam outros moradores. Foram todos  para as janelas do apartamento de frente e para as escadas, que tinham janelas para a rua, que havia se tornado um rio;  no térreo, a água já estava, agora,  na altura de meia janela.

Viram uma mulher pedindo socorro; o  carro  dela boiava e  ela não conseguia sair  do mesmo.  Gritos aflitos! Carlos, homem alto, musculoso dono de um lava-carros/garagem a meia quadra do prédio, onde Joana também guardava seu carro, aparece para ajudar, e consegue retirá-la pela janela. Cena inesquecível. Medo, tristeza, compaixão, alívio. Mistura de sentimentos. Nunca imaginara viver algo assim!

 Eram três os moradores do térreo: Joana, que vivia só, o  Sr. Márcio, com a esposa e Katia, com marido e dois filhos.  O apartamento da Kátia era  o maior, deste andar, com  dois quartos.
A sensação  de todos era de desespero e impotência, vendo suas casas serem alagadas.  O senhor Márcio, morador antigo do prédio,  já  havia vivido esta situação antes; Joana nunca havia pensado ser protagonista de uma cena tão aterradora.

 Quando  visitou  o imóvel para comprar havia  lhe chamado a atenção uma escada no térreo, que lhe pareceu sem sentido. Era em V invertido e não levava a lugar algum; a escada  para os demais dois andares  era mais atrás, sem conexão com estes três degraus. Havia perguntado e  lhe disseram haverem levantado para evitar alagamentos.  Pareceu estranho, mas não lhe ocorreu que pudesse  entrar água, na proporção do ocorrido. O apartamento era o que estava buscando. Lindo, aconchegante, e com um mini pátio, nos fundos.

 A chuva forte durou cerca de 1 hora, mas ficaram no 1.º andar por cerca de  três horas, até a água baixar. Neste ínterim, Joana tentou ligar para os filhos, mas só conseguiu falar com  Pedro, o mais velho, que disse para ela  ir para a  casa  dele, o que, no momento,  era impossível. Estavam ilhados. Ligou para o namorado, que estava em viagem,  para desabafar, contando que ao sair do apartamento a água já estava no meio da janela, 1 metro e meio.  O que ele poderia fazer? Só a necessidade dela em desabafar, e dividir este momento horrível com alguém próximo como se isto fosse amenizar o que estava passando e sentindo.
Quando, finalmente, a água baixou,  desceram para ver os estragos. Um horror!
A geladeira boiava no meio da cozinha, gavetas alagadas. Lama  e entulho. Uma devastação com muitas perdas. Um cheiro horrível. Não era possível examinar os estragos porque à luz de velas,  só  era possível  ver que os móveis haviam sido muito estragados.  Impossível ligar o interruptor, pois poderia causar um curto-circuito.
Trocou de roupa, pegou documentos e dinheiro que,  graças a Deus, guardava em   gavetas mais altas, caminhou até a avenida, com água, ainda pela canela, e após alguns minutos conseguiu chegar até um ponto de táxi, e foi para o apartamento do filho.  A garagem, na mesma rua, onde guardava seu carro, também estava alagada e seu carro precisaria, com certeza,   de reparos.
Uma sensação de abandono, perda, desespero.  Sua casa, seu canto de lazer, e até  seu  carro, destroçados. Não sabia  quais  eletro domésticos ainda estariam funcionando, e   nem estimar as perdas reais. Estava abalada, havia perdido sua noção de pertencimento,  seu lugar de descanso, seu refúgio.
Ficou imaginando como deveriam se sentir os moradores ribeirinhos, que vivem esta situação, rotineiramente, ou  no temor que possa ocorrer. Pensou, também, nos grandes desastres/calamidades, e no sentimento das pessoas que de uma hora para a outra perdem suas casas e pertences.

 Manhã do outro dia, após uma noite insone, com as cenas se repetindo em sua cabeça, como em um filme, chegam, ela e o filho ao apartamento. A rua é um entulho de lixo, lama,  restos, esgoto. Fede muito! Há muita gente na rua, além de repórteres de TV. Todos questionando, comentando e confraternizando na dor. Havia  histórias  piores que a dela.  Kátia, cujos móveis não  eram embutidos, tombaram, quebrando objetos, causando muito estrago,  e com perdas ainda mais significativas.
Joana nem sabe por onde começar. O apartamento está destruído. Os tabuões do chão estão  com buracos, os armários embutidos soltando a cobertura de MDF, livros inchados, sapatos  que ficavam em gavetões, embaixo da cama, destruídos. Gêneros perdidos. Havia comprado há pouco duas poltronas, brancas, lindas de embalo, que jaziam  tombadas, cobertas de barro.
 Começam a tentar a limpeza, levantando os eletrodomésticos e testando tudo. Adentram os repórteres, com câmeras de TV,  questionando as causas e solicitando entrevista. Joana dá uma declaração: 
 "Esta tragédia foi provocada por obras inacabadas na construção de um ducto, que devido a um planejamento pobre e descuidado, bueiros entupidos, deixaram ruas vulneráveis, e a enxurrada veio derrubando muros e estacas mal colocadas.  "O que as autoridades vão fazer agora?  Como vão indenizar os moradores ?”

Após recolherem a  roupa para lavar, colocando muita coisa no lixo, chamaram uma equipe para limpar e desinfetar tudo.   Era humanamente impossível fazer todo o trabalho. Nem sabia por onde começar. Foi para um hotel  já  que não era possível pernoitar ali.
Voltou para o apartamento após 3 dias, mas a sensação era horrível.  A cada noite e a cada temporal, o medo de um repeteco; além disto, minhocas e outros insetos saiam do piso danificado. O cheiro de esgoto insuportável. 
. Não houve  auxílio/ contato por parte do município ou medidas para prevenir nova tragédia , com a obra se arrastando. Um ano depois,  o apartamento já reformado, voltou  a ser alagado e Joana decidiu vender.  Não queria arriscar uma próxima vez.  
Situações traumáticas ficam como impressas, e conseguem fazer o sentimento original ser revivido.

 Sem esconder  o ocorrido,  com o imóvel em perfeitas condições, conseguiu um preço justo. Não conseguia mais morar ali. As recordações eram penosas. Iria recomeçar em outro lugar.  Queria outras lembranças. Aquela casa já não mais seria seu lar, sua segurança, seu refúgio.

A obra acabou sendo concluída, quase três anos depois, e acabaram-se os alagamentos.  O município  não se responsabilizou  ou ressarciu os moradores pelo prejuízo e tiveram que entrar na justiça para cobrar seus direitos. Ganharam a causa, danos físicos e morais, mas os precatórios ainda não foram pagos, em sua totalidade.


 NA: Crônica com base em fatos ocorridos. 
 

sábado, 26 de março de 2022

REMINISCÊNCIAS

 





 
Olho para trás,  meus anos de primeira infância, equilibrando-me nos beirais dos canteiros,  que  dividiam  o pátio  em quadrados, cada um com diferentes árvores frutíferas.  
Lembro que em determinada estação, hoje não sei precisar qual, ajudávamos a ensacar as frutas para as  proteger dos insetos  Adorava fazer isto. Papai nos  dava alguns cruzeiros, (anos 50).  Colhíamos muitas frutas, que os parentes e vizinhos levavam em sacolas. Mamãe  também preparava vários  doces em calda: figo, laranja azeda, doce de batata doce.
Deliciosos! Consigo, hoje, ainda, sentir o
  cheiro e sabor. Incrível como lembramos cheiros e sabores.
Anos mais tarde, meu pai plantou um  canteiro  só com roseiras.  Ele amava, em suas horas de folga, pegar uma enxada e revirar os canteiros. Era um terreno longo de mais de 30 metros. Bem ao fundo, havia  um galinheiro.
Era muito especial  colher  os ovos e ver as galinhas  voando de poleiro em poleiro, cacarejando  alvoroçadas. Amava a cena! Era tudo muito de repente; com minha entrada, o caos se instalava. 
Assim é na vida da gente; o inesperado nos tira de nosso eixo. Esta é, talvez, uma lembrança  marcante de minha primeira infância. 


Não tinha muitos amigos, mais imaginários que reais, e meus irmãos eram bem mais  velhos. Me encantava criar histórias encantadas com minhas bonecas e meus diversos bichinhos de estimação. Tive um porquinho da índia, que amava vestir , e  arrastar  em minhas aventuras pelo pátio e vizinhança. Anos mais tarde, tive uma tartaruga. Minha diversão era fazer a Julieta colocar a cabeça fora do casco. Eu dava soquinhos no casco e chamava: “ Jujú, vem pra fora.”  Hoje penso que há muita gente como a Julieta, que se escondem do mundo, que pode ser  muito inseguro, apavorante.

Meu pai tinha um papagaio, Zacarias, mas com exceção dele, papai não deixava ninguém se aproximar. Bicava e xingava com o palavrão preferido de meu pai. “Que merda! “ Manhã cedo gritava: “ Louro  quer café.”
Para desespero de  meu pai, um dia o louro sumiu. Mamãe alegou que esquecera de cortar suas asas e que devia ter alçado voo e se perdido. Papai custou a se consolar. Algum tempo mais tarde comprou outro,  mas não era igual. Nada é. Tudo é substituível, mas não igual.
Ele nunca  soube  a história real. Rebeca, cadelinha pinscher da  mãe, junto com seu filhote Sheik haviam depenado e matado o pobre Zacarías. Mamãe encontrou as penas e seus restos, pelo pátio. Horrorizada nunca falou ao papai, e nos proibiu de contar a verdade,
Mentirinhas. Contamos algumas para evitar desentendimentos, tristezas,  mas a verdade dói  em nós.

 

quarta-feira, 16 de março de 2022

A Persistência da Memória



 O que permanece com a passagem do tempo?   


Ao longo da vida vivemos ciclos distintos, assim como a natureza,  e  gradualmente, vamos mudando, nos tornando outros. Nada fica igual, tudo se transforma, se dilui,  se modifica. 
Olhamos para nós mesmos, e não nos reconhecemos.  Os cenários são distintos, os sentimentos, as percepções, os objetos.  As memórias permanecem, mas alteradas por nossos estados físicos e psíquicos . Algumas são mais  persistentes porque nos remetem a situações marcantes em nossa vida; outras nebulosas.

Este quadro  de Salvador  Dali nos  faz pensar  em como a passagem do tempo diluiu quase tudo: emoções, percepção, objetos, sua importância e nossa visão dos acontecimentos. Como é rápida esta passagem!

 Olho para minha vida e vejo várias outras, distintas, em um todo que já não está perfeito, mas alterado pelas lembranças e emoções.  Como um sonho do qual lembramos fragmentos, mas não a história completa.

Com o passar dos anos, acredito,  lembramos mais do passado do que de fatos presentes.  A memória registrou tudo que foi marcante, e nos faz reviver momentos, que tiveram relevância em nossas vidas. Recordamos  alguns fatos que tiveram impacto, e apagamos outros. O tempo e nós somos passageiros, transitórios, mas as marcas, os registros,  a história  permanecem, e persistem em nos lembrar o que foi importante. 

Esta é a  persistência da memória, principalmente, em se tratando de arte,  pois atravessa séculos, transmitindo emoções e sentimentos vividos.
É  história, cultura.

Cida Guimarães
16/02/2022

sexta-feira, 4 de março de 2022

Felinos Magnéticos!

                  

Há muita superstição sobre gatos, principalmente, os negros. Costumam estar associados a maus presságios, azar e possíveis mortes nas famílias.

 Na antiguidade, eram ligados a bruxas, feitiçaria. No Halloween, sempre, há muitos gatos pretos marcando o supernatural. Entretanto,  não se justificam estas crenças negativas. Há muito de positivo. Hoje, sabemos que os gatos pretos, geralmente, se aproximam de pessoas espiritualizadas; escolhem seus donos. São majestosos pelo contraste de seu pelo negro com olhos, na maioria das vezes, muito claros, verde ou amarelos. São lindos!

Ao buscarem seus donos acabam por também reproduzirem seu comportamento. No budismo e nas religiões orientais os gatos são seres iluminados, que transmitem calma e harmonia, e retiram nossa carga negativa, ajudando o ser humano a se conectar com seu inconsciente.

 A Negrinha, uma gatinha preta com algumas manchas ferrugem,  espalhadas pelo corpo, e uma patinha  que acredito ser quebrada, pois, é dobrada quase na ponta, fez de nossa casa sua morada. Veio para cá há uns dois anos para ter uma ninhada, e desde então dorme nos diferentes chalés, em cima do capô do carro, nas lixeiras. Sempre, super arisca,  não deixava eu me aproximar. 
 Este ano resolvi  tentar vencer sua resistência. e comecei a colocar ração e água em um potinho. Isto já faz dois meses e já houve  avanços. Já responde ao meu chamado, deixa eu  chegar perto,  mas ainda não aceita o toque, só muito de leve. Até entra na lavanderia . Ela parece ter sofrido muito, pois tem muito receio e além disto tem o Negrão,  seu macho, que vem todo metido, e acaba comendo quase toda sua comida. Ele é grande, forte, preto retinto, lustroso, com um garbo e uma arrogância que contrastam com a timidez, o receio,  e o avanço tímido da Negrinha. 

Desculpem os nomes  que, talvez, não pareçam politicamente corretos, mas expressam meu carinho e os designam perfeitamente. 
Há  entre a Negrinha e o Negrão  uma relação de dominação e abuso, como acontece  em alguns relacionamentos humanos, onde as mulheres  se submetem e ficam a mercê dos desmandos de seus companheiros.
 Quando olhamos e analisamos o comportamento  dos racionais e irracionais podemos constatar várias similaridades, e muitas vezes os irracionais são  até mesmo, menos violentos e agressivos do que os  ditos racionais.

Sempre gostei de gatos. Adorava a Kitty, uma gata que tive há quase 30 anos. Lembro dela entrar de manhã cedinho em meu quarto e ficar arranhando o carpete até eu acordar  e ir dar de comer. Se enrolava em minhas pernas. Ao vendermos a casa, após minha separação, não quis levar para o sétimo andar de um apartamento e ela foi com  meu ex-marido para o sítio, onde não se adaptou. De lá para cá não tive mais cachorros ou gatos, mas para mim, a natureza e os animais, parte da criação divina, fazem minha alma vibrar. 

Gatos nos ensinam como manter  e utilizar nossa energia de forma positiva.  Não desperdiçam  movimentos; estão imóveis, e de repente saltam com uma leveza invejável. São, velozes e super limpos. Sentem a situação,  o ambiente, e rapidamente  buscam refúgio ou  se roçam em nós para mostrar seu apreço.
 A Negrinha e o Negrão foram, gradualmente, se domesticando e, hoje, conseguiram com sua obstinação, um abrigo, nossa afeição e cuidados. 
Nos magnetizaram!